O jornalismo é uma seara de palavras, textos e imagens. Impõe não somente um modo de escrever, um estilo, mas também um modo de comunicar fatos e acontecimentos. Sua função é esclarecer e fornecer dados para que os leitores entendam melhor a realidade. Jornais também formam opinião, têm influência e, por isso, estão eticamente comprometidos em ser imparciais. Mas não são neutros.
Há jornalistas que são mestres da escrita. Podem se dedicar à reportagem, à crônica ou à edição de textos alheios. Mas sempre se distinguem por conhecer o poder das palavras. Marcelo Godoy, jornalista do Estadão, é um deles. Escreveu livros poderosos, com reportagens que recuperaram parte importante da história brasileira. Em A casa da vovó: uma biografia do Doi-Codi, 1969-1991 (Alameda, 2015), retratou a perversidade maligna inscrita nas instalações do Doi-Codi, braço da Oban (Operação Bandeirantes) encarregado de sequestrar, torturar e matar integrantes das organizações de esquerda que se opunham à ditadura militar. Em Cachorros: a história do maior espião dos serviços secretos militares e a repressão aos comunistas até a Nova República (Alameda, 2024), traçou a trajetória de Teodoro Mello, dirigente do PCB que colaborou durante anos com os serviços de repressão da ditadura. Nos dois livros, a pesquisa foi minuciosa. Incluiu entrevistas e ampla documentação, localizada com esmero de historiador.
Em 2025, Marcelo lançou Olhos Negros, um belo romance dedicado a esmiuçar a esfera dos ressentimentos familiares. Exibe, nele, o mesmo refinamento estilístico de suas reportagens, com o benefício de poder soltar a imaginação e voar pelo mundo das fantasias, dos demônios que habitam corações humanos, das relações entre pais e filhos, repletas de segredos, hábitos, sentimentos ocultos e frustrações.

A trama é relatada por Paulo, filho mais velho de Vicente Volpin, comerciante da pequena cidade de Santo Antonio. Um homem desconfiado, irascível, refratário a qualquer forma de ternura ou acolhimento, sempre “a procurar uma oportunidade para retirar um dos vários espinhos que colecionava em sua garganta”. Vicente desafiava tudo o que era sensível, vivia dominado pelo medo e pela desconfiança, consumido por uma “inquietude que lhe vedava a tranquilidade de um amor construído palmo a palmo, misto de renúncia, compreensão, respeito e satisfação que a felicidade do amado proporciona a quem a cultiva”.
Vicente tinha “a fúria paterna de um olhar doentio e despótico”. Casou-se três vezes, sempre maltratando suas mulheres. Agrediu e desprezou cada um dos seis filhos que teve, indiferente à sorte de cada um. “Nosso pai revelou seus demônios e destruiu nossa mãe e a vida de todas as outras mulheres que o seu caminho cruzaram”, conta Paulo. Que vai, ao longo do romance, percebendo melhor o tamanho da brutalidade daquele pai, que legou ao mundo uma herança repleta de “sangue sulfuroso e ácido”.
Paulo não abandona o pai, mas passa a vê-lo como um canalha, um homem desprezível que chegou mesmo a espancar Marilia, sua terceira esposa, ingressando no terreno do “homem que bate em mulher”. Impressionava-se quando o pai o olhava “com seus olhos negros como um buraco na galáxia, insinuantes e intensos como imaginava serem a espada, a fome e a peste”.
Paulo também não abandona Santo Antonio. A cidade o perseguiria pelo resto de seus dias. “Acreditei que pudesse deixá-la, mas já me havia transformado em sal sem que o soubesse”.
A beleza do romance está no desvendar de uma trama de sofrimento e dor. Constrói com vigor a figura daquele homem avesso a gentilezas e afetos, tomado por paixões doentias, agressivo e violento, que destruiu tudo o que havia tido de família, mulheres e filhos.
Marcelo Godoy é um esteta, preciosista. Seu texto é envolvente e magnético. Faz uso de recursos narrativos variados, contemplando seus leitores, em diversas partes, com poemas escritos por Paulo nos momentos de introspecção e saudades da amada. O romacista parece falar pela boca de Paulo: “o duro de escrever poesia não é simplesmente pensar claro e ritmado, mas conseguir capturar a voz de cada palavra”.
Olhos negros dialoga com a poesia mesmo quando não ilustra a trama com poemas. O romance captura a voz de cada palavra e captura, assim, todos os que se dispõem a lê-lo.




