A Copa superlativa

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A "diáspora" recente e a integração esportiva nivelaram o futebol. Continuam existindo equipes fortíssimas, fortes, medianas e fracas. Mas o equilíbrio aumentou.

A FIFA conseguiu organizar uma Copa do Mundo com números extravagantes: 48 seleções, 1.248 atletas de diferentes credos, etnias e culturas, estádios gigantescos espalhados por Estados Unidos, México e Canadá. Consta que a FIFA projeta faturar US$ 8,9 bilhões, tornando a Copa de 2026 a mais lucrativa da história do torneio. Em direitos de transmissão serão US$ 3,9 bilhões. Com ingressos e hospitalidade, outros US$ 3 bilhões. Patrocínios e marketing, mais US$ 1,8 bilhão. Com as pausas para hidratação virão US$ 500 milhões em receitas de publicidade.

A Copa 2026 expressa bem a mundialização do esporte mais popular do planeta. Está radicalmente mercantilizada. É uma máquina de fazer dinheiro. Os atletas protagonizam o espetáculo: viabilizam a rentabilidade das marcas e, ao mesmo tempo, exibem suas identidades, seus estilos pessoais, suas chuteiras valiosas. Uns mais, outros menos, todos são stars.

A mundialização aprofundou a miscigenação, filha da “diáspora” mais recente. Fugindo das guerras e das más condições de vida em vários países (muitas ex-colônias) da África, da Asia, do Oriente Médio e do leste europeu, diversas famílias criaram seus filhos no Ocidente e alimentaram tanto as seleções dos países originários quanto das europeias. Tudo se misturou. Seleções “brancas” ficaram multicoloridas. Atletas formados na França, na Inglaterra, na Espanha, deram maior qualidade ao futebol de seus países de origem familiar.

Essa integração esportiva nivelou o jogo jogado. Não eliminou diferenças. Continuam existindo equipes fortíssimas, fortes, medianas e fracas. Mas o equilíbrio aumentou. O milionário futebol europeu se tornou a Meca do esporte. Quem tem talento aprende e se desenvolve lá. Com isso, atletas de diferentes países passaram a receber treinamentos semelhantes e a assimilar concepções táticas parecidas. Todas as seleções estão bem-preparadas, com atletas que sabem o que fazer com a bola. Há esquemas táticos e jogadas ensaiadas em todas as equipes. As mais fracas se fecham, as mais fortes assumem riscos. Mas, no futebol, um erro decide. Não se ganha jogos por antecipação ou só pelo peso da camisa. Como observou o professor Paulo Fábio Dantas Neto, da UFBa, “o futebol é um esporte em que jogadores e times podem substituir sua menor qualidade por mais retranca, garra, entrega, superação, coragem, heroísmo ou qualquer outro nome que se possa dar a zebras e surpresas em geral”.

Coisas importantes continuam a fazer a diferença. A tradição, a identidade e a continuidade do trabalho ao longo de anos. Das grandes escolas futebolísticas, apenas a italiana ficou de fora, mais uma vez, sinal de algo não vai bem no calcio do país. O Brasil trocou de técnicos várias vezes nos últimos anos. Também conta o tempo de preparação, de convívio dos atletas e de assimilação tática, o que produz harmonia e coesão coletiva. E não se pode esquecer dos jogadores decisivos, em torno dos quais gira o jogo e que, em um lance, decidem a partida. Há vários craques distribuídos pelas seleções mais fortes. A Argentina tem um gênio, Messi. O Brasil tem Vini Jr., mas a seleção busca recuperar a identidade perdida e seu técnico tem dificuldades para definir uma equipe. Parece estar melhorando jogo após jogo.

E o que falar das transmissões televisivas, tanto da Globo quanto da novata e poderosa CazéTV? São uma prova de resistência para os espectadores. Carregadas de informações supérfluas e ufanismo. Investem pesado em autopromoção. A CazéTV o faz de forma escrachada, celebrando sua audiência e seus patrocinadores. A Globo é mais contida, mas segue roteiro semelhante. Os profissionais conhecem futebol, mas também atuam como animadores de torcida e garotos-propaganda. As emoções do futebol são amplificadas por discursos passionais. Menospreza-se a qualidade das seleções mais fortes para se exaltar a coragem e a resiliência das mais fracas. Fabricam-se heróis instantâneos, como ocorreu com os 15 minutos de fama do goleiro Vozinha, de Cabo Verde. Tropeços ocasionais são transformados em feitos históricos. O padrão das transmissões é voltado para “desconstruir” as seleções mais fortes e torcer contra elas, para evitar que cruzem com a seleção brasileira, que não anda numa fase muito competitiva.

Fernando Gabeira lembrou, numa coluna do Estadão, que a Copa, concebida como apologia do esporte e do fair-play, teve de conviver com a política migratória e a xenofobia de Trump. Os “ares da guerra contra o Irã foram transplantados para o campo esportivo”. O governo estadunidense passou vexame ao exigir que os iranianos jogassem nos Estados Unidos, mas dormissem no México. O árbitro somali Omar Artan foi barrado ao entrar nos EUA. Jogadores senegaleses foram submetidos a inspeções rigorosas sob suspeitas paranoicas. A FIFA aceitou.

Agora falta o desfecho. Virá o Hexa? Por que não? Afinal, trata-se de futebol. Mas o futebol brasileiro não é mais um bicho-papão, perdeu qualidade e brilhantismo. Paga  preço alto por sua desorganização, pelas gestões incompetentes, pelo endividamento dos clubes, pela ruindade da arbitragem, pelo descuido com os jovens talentos. A eliminação precoce da seleção talvez contribua para que se veja a situação a que chegamos e impulsione mudanças importantes: reforma do calendário, aperfeiçoamento da formação de base e maior incorporação de tecnologia. A conquista da Copa, ao contrário, será objeto de grande celebração, mas poderá varrer a sujeira e a mediocridade para baixo do tapete.

Só resta aguardar.


Artigo publicado em O Estado de S. Paulo, 27 de junho de 2026, p. A6.

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Marco Aurélio Nogueira
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