Por que ler livros, jornais e revistas? Ganha-se algo com isso? Ou basta acompanhar as notícias e postagens pelo celular e pelas redes?
O brasileiro lê pouco. Hábito reforçado pela vida digital. Pela força do analfabetismo funcional. Pelas desigualdades. Defeito da nossa formação social. Pela ausência de políticas sistemáticas de incentivo à leitura. Elas existem, mas oscilam conforme os governos.
Nossa indústria editorial tem alguma envergadura, mas quando comparada com as grandes editoras europeias e norte-americanas, as editoras brasileiras precisam fazer milagres para ficar à altura. O circuito produção-distribuição-consumo vive sempre meio travado, há poucas livrarias e poucos leitores, por mais que o “mercado” consumidor seja amplo e mostre oscilações positivas. O preço do livro afugenta e há inúmeras brechas para que se acessem títulos por meio de “livrarias digitais”. Sempre é possível encontrar uma versão Epub ou em PDF de um livro lançado em papel.
Isso desagua num traço da época hipermoderna: lê-se aos pedaços, em fragmentos, como se fosse possível construir uma cultura teórica a partir de segmentos de livros, artigos e postagens, que se acumulam em excesso sem o devido processamento. Eu li o que você me indicou ontem – aquele livro, lembra? – mas já esqueci e agora estou avançando na leitura de outro. Parece até que o leitor hipermoderno lê para dar conta do que lhe é ofertado. Quase uma competição. Perde-se, com isso, um bom tanto de foco na palavra escrita e impressa, coisa que exige tempo e esforço para interpretar e compreender ,argumentos mais complexas.
A Política Nacional de Leitura e Escrita (PNLE) surgiu em 2018 e contou com a participação decisiva de José Castilho, professor de filosofia e então Diretor-Presidente da Editora UNESP, que circulava e batalhava firmemente por uma maior atenção do Estado ao livro e à formação de leitores. Foi um marco no Brasil.
Meses atrás, Castilho publicou um livro com crônicas e reflexões sobre essa batalha.

O poder das palavras e outros poderes (Solislula & Selo Emília, 2026) procura abrir o leque sobre as carências brasileiras na área do livro e da leitura. Defende que se olhe com atenção para elas, convencido de que o domínio das palavras abre as portas da compreensão do mundo e da vida. Deseja chegar à opinião pública e, por meio dela, às famílias e às escolas, ambientes nos quais quase tudo de fundamental pode ser feito. Casas podem ser circuitos culturais de leituras de livros, de filmes e músicas. Escolas podem ser organizadas em torno de livros, bibliotecas, análises literárias e incentivos à leitura. Se há falhas nesses dois espaços essenciais, a formação de leitores fica comprometida. Não se compõe um público de leitores.
A prosa de Castilho é sedutora. Ele escolhe as palavras porque sabe que elas são poderosas. Quer mostrar, assim, que quem as cultiva e domina tem uma vantagem adicional na vida em sociedade e na compreensão do mundo.
Precisamente por isso, aprender a ler e a escrever são direitos fundamentais. Palavras formam ideias e cidadãos. E organizam as redes e a vida digital, para o bem e para o mal. As palavras chegam mesmo a sufocar aqueles que as leem, tamanha é a profusão delas no cotidiano. Somos cada vez mais “falantes”, mas ouvimos pouco, dialogamos pouco, não nos dedicamos à boa escrita, desconhecemos o léxico e a língua em que nos comunicamos. E nem sempre percebemos que as palavras precisam ser tratadas como recursos preciosos, que nos possibilitam dialogar e agir no mundo, orientando nossas escolhas e nossos relacionamentos. Não pode haver democracia sem palavras bem lapidadas. E, hoje, nossas democracias estão em crise, desafiadas por todos os lados. Lutar com palavras equilibradas pode ajudar a protegê-las. Mediante o diálogo.
Não há por que interromper a batalha para que essa situação mude. Castilho nos oferece um mapa para seguirmos em frente: a organização de uma política pública cultural e educacional que acompanhe os brasileiros ao longo da vida, criando espaços (bibliotecas, livrarias, comunidades ativas) para que se formem consciências e se valorizem tudo aquilo que pode melhorar a vida que vivemos. Com livros, leituras e palavras, certamente, mas também com tudo o que a cultura tem de bom a nos oferecer.




