Debate patético expulsa a política do palco

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Debate incompatível com o cargo de presidente da República foi um circo de horrores e agressões. Massacrou a política, justo ela, pobre coitada, que já estava estirada ao rés do chão  

Finalmente, no dia 18 de outubro, faltando 7 dias para o segundo turno das eleições presidenciais de 2026, a Band conseguiu trazer os dois candidatos para um debate cara a cara. Apresentou o feito como um “marco histórico” e fez um compreensível alvoroço em torno dele.

A montanha, porém, pariu um rato.

A gente pode concluir o que quiser, que Lula foi melhor que Flávio, ou vice-versa. Pode dizer que o formato do debate foi inadequado e até mesmo, numa linha mais conspiratória, que a Band e a “grande imprensa” fizeram o possível para prejudicar o candidato petista. Pode especular que Lula caiu numa armadilha, da qual não soube se desvencilhar, que ficou encurralado, desconfortável. Ou que Flávio se mostrou o cafajeste perfeito, cínico e provocador, desinteressado de qualquer debate sério, arrogante na postura física e na narrativa, ameaçador.

O que não podemos dizer é que o debate tenha sido compatível com uma postulação presidencial. Ele foi, na verdade, um circo de horrores e incompetências, de ofensas e agressões, muita sordidez. Um debate que expulsou a política do palco, justo ela, pobre coitada, que atingiu seu nivel mais baixo nos últimos anos.  Não sobrou pedra sob pedra. Nenhum dos candidatos demonstrou dignidade cívica e senso de responsabilidade democrática. Ambos foram incapazes de comprovar que estão em condições de governar uma sociedade complexa como a brasileira. Tiveram um único objetivo: desgastar a imagem do adversário, desconstrui-lo, estigmatizá-lo. Elevaram a polarização rasa à sua mais perfeita expressão, sangrenta, irreconciliável, desprovida de conteúdo e sentido.

Não deu para saber quem atirou a primeira pedra, quem lançou a primeira provocação, quem acendeu a chama para uma briga de rua. Lula acusou Flávio de ter votado contra a extensão da licença maternidade por mais dois meses, para receber, na sequência, a acusação de estar protegendo Lulinha dos esquemas denunciados pela lobista Luchsinger. Sabe aquela coisa de “seu pai não é homem”, “seu filho é ladrão”? Pois é, rolou o tempo todo.

Flavio abusou de silêncios preenchidos por mentiras deslavadas e provocações sucessivas. Caminhava no palco para fazer sombra ao adversário. Agia como se estivesse no controle da situação, com uma coreografia intimidatória, que lhe garantiu visibilidade permanente. Seu objetivo cênico foi aparecer para as câmeras. Prometeu segurança máxima, bandidos na cadeia e prosperidade para os brasileiros. Nenhum plano, nenhum projeto, nenhum esclarecimento sobre como conseguiria fazer tudo isso. Ele fez o possível para enlamear o debate, impossibilitá-lo, descaracterizá-lo. Como discutir a sério com um cara destes?

Do outro lado, Lula não conseguiu defender seu governo ou apresentar realizações. Pareceu ter sentido a acusação de que disputa o quarto mandato por “desejo de poder”. Cometeu a gafe recorrente de dizer que, em 2002, recebeu um “país quebrado”, uma “herança maldita” atribuída aos governos anteriores (FHC), e que ele, Lula, soube organizar um país pujante. Ainda acrescentou: “o que fiz em meus dois primeiros governos foi desfeito e o país só voltou a crescer no meu terceiro mandato”, ignorando sem dó nem piedade os oito anos do governo Dilma. Também não deixou claro o que fará para cumprir o que prometeu em 2022 e não conseguiu realizar no terceiro governo. O máximo a que chegou foi anunciar que criará uma “universidade indígena” em Brasília e não “entregará o país ao Trump”. Terminou propondo ao adversario que abra o sigilo bancário para ver quem roubou, o que não deixa de ser uma provocação reversa. Teve de ouvir em troca que isso é impossível porque todo dinheiro que recebeu veio “por fora”.

Se alguém imagina que sairemos melhor dessa situação, ou é um torcedor fanático, um dogmático, um ingênuo, ou vive num mundo de fantasias e ilusões.

Depois desse debate, para onde o país irá, vença quem vencer? Impossível saber. Só dá mesmo para ver que o horizonte ficou mais nublado do que antes, mais difícil de ser perscrutado. Lula contará com forças para fazer um governo diferente? Caso vença, terá pela frente um quadro desfavorável, politica, economica e institucionalmente. Já  se projetou a sombra de uma nova ditadura ou o bolsonarismo eventualmente vitorioso comerá a democracia liberal aos poucos?

Seja como for, é um fato que governar sociedades hipermodernas — movidas a redes, informações incessantes, tecnologias digitais, velocidade e fragmentação — será sempre um exercício complexo e instável.

Em termos imediatos: não dá para saber que efeito o arranca-rabo entre os candidatos terá no eleitorado, naquele eleitor que está indeciso, ou que não gosta nem da esquerda e nem da direita? Mudará intenções de voto, tirará de casa quem se absteve, dará energia aos milhões que procuram, no momento derradeiro, virar votos?

São perguntas que talvez somente as urnas responderão. Pesquisas irão preencher a semana final, fornecendo números para todos os gostos, animando torcedores e apoiadores, que continuarão a litigar, à espera do apito final. E ainda haverá um novo debate, para manter quentes as brasas. Não é de esperar que haja alguma alteração, salvo uma eventual “bomba” moral ou uma acusação arrasa-quarteirão. Ou seja, qualquer movimento para cima ou para baixo dependerá do acaso ou das cloacas repletas de sujeira, não da política.

O cenário é melancólico, desalentador para o campo democrático. Dá para entender que a campanha bolsonarista tenha sido pautada pelo histrionismo de Nikolas Ferreira e Pablo Marçal. Mas é incompreensível que a equipe de Lula tenha se deixado levar pelas grosserias de André Janones, voltadas para as bolhas de esquerda. Os candidatos aceitaram isso sem objeção.  De Flávio poderia vir qualquer coisa, mas de Lula se esperava muito mais.

Se essas constatações fazem sentido, a conclusão é que Flávio não venceu, mas espalhou seu veneno. Lula não perdeu, mas não conseguiu marcar posição. O último round se estenderá até o gongo final, dia 25 de outubro.

Resta saber o que nós, democratas, teremos de fazer para alterar uma situação que, independentemente do vencedor da disputa, exigirá novas ideias, novos projetos, novos diálogos e, quem sabe, uma utopia que nos congregue a todos.

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Marco Aurélio Nogueira
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