Uma fábula sobre o humano do nosso tempo

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Novo romance de João Batista de Andrade prende desde a primeira linha e se desenvolve com uma escrita sensível e criativa.

João Batista de Andrade tem um biografia intelectual e artística solidamente identificada com o cinema nacional, do qual é uma referência e no qual atua há várias décadas. Realizou filmes memoráveis, como Doramundo (1978), O homem que virou suco (1981), O país dos tenentes (1987) e Vlado (2005). Sua atividade artística caminhou ao lado de uma intensa dedicação às causas políticas, sociais e culturais. Foi Secretário da Cultura do Estado de SP (2005/2006), presidente do Memorial da América Latina (2012 a 2016) e Secretário Executivo do Ministério da Cultura (2017).

Batista nunca deixou de lado o lápis e o papel. Tornou-se um escritor, um romancista. Como seu cinema é marcadamente autoral, com enredo e roteiro feitos por ele mesmo, a chegada à literatura foi harmoniosa, não representou nenhuma ruptura. O escritor esteve sempre presente no cineasta.

Ele tem publicado romances com grande regularidade. O primeiro deles foi escrito em 1964 e publicado somente em 1989. Na sequência, vieram outros doze. Em 2021, publicou 1964, uma bomba na escuridão e Extrema, incerta ilha do amanhã, ambos pela Editora Paisá. No final de 2025, saiu o mais recente deles, Ecos de Badajoz. Uma fábula de nosso tempo (Editora Patuá), no qual Batista dá plena vazão ao seu amor pelas palavras, pela poesia e pela narrativa. Mais que uma demonstração de amor, o romance é uma prova da criatividade e do talento do escritor, que nos envolve em uma fabulação sobre o humano do nosso tempo, convidando-nos a flutuar entre o trágico e o poético, o épico e o popular.

Badajoz é uma cidade espanhola que, em 1936, logo no início da Guerra Civil Espanhola, teve grande parte de sua população fuzilada pelo exército de Franco, sob a acusação de serem ativistas republicanos. É o lugar onde nasceu o personagem Leo Buenura, que se radicou no Brasil anos depois do massacre, tornando-se dono do boteco Peixe Vivo, famoso por suas manjubas fritas e palco para a evolução dos repentistas Solano e Trindade, cujos versos improvisados e rimados ao som de um violão colorem a narrativa. Eles carregam consigo “a disposição dos que sabem ajudar pessoas a se libertarem de segredos danosos, do sofrido peso das informações proibidas”, verdadeiras “caixas de confissões”.

Buenura, por sua vez, esconde uma trajetória repleta de solavancos e mistério, que vão sendo desvendados ao longo da trama.

Ao lado deles, estão Benvindo e Poliana, personificação dos lados opostos do bem e do mal, da falsidade e da ingenuidade, da maldade e da pureza. Benvindo é tão demoníaco que, em dado ponto da história, se converte em Benkisto/Mefisto. Poliana vive num mundo de ilusões, cercada por doceiros gulosos, diante dos quais não passa “de um graveto, um risco de giz”. Quando mais doces ela come, mais ainda emagrece.

Os dois engatam uma relação amorosa, Poliana engravida e Benvindo a abandona, levando a moça a enveredar por uma busca obsessiva que a joga na prostituição, na solidão e na exploração. Poliana sofre ainda mais quando Benvindo/Benkisto reaparece e rouba seu bebê. O romance ganha então uma história movimentada, que vai do sonho à tragédia, da violência ao amor, da liberdade à dominação. A narrativa segue o ritmo de uma ópera, com personagens que falam por versos. E a construção da fábula assume consciente a dimensão de uma deliciosa farsa. Lê-se o texto como se ele fosse repentinamente se abrir para um filme.

Batista construiu uma fábula, mas não a distanciou dos perigos e das contradições da vida real. Muito ao contrário. A história da Badajoz espanhola e do fascismo de Franco reverbera na situação política nacional, encarnada em manifestações que evocam “Deus acima de tudo, com a pátria e a família”, refrões ainda frescos na memória dos brasileiros. A história de Benvindo e Poliana reflete a história de tantos casais de carne e osso, um padrão de vida marcado pelo sofrimento, pela violência e pelo trágico.

João Batista de Andrade é uma mente inquieta, em constante busca pelo novo. Ele se vê e atua como um “peregrino em busca de verdades e de alguma compreensão desse mundo estranho e conflituado em que nasci”. Um escritor que é “garimpeiro em garimpo esgotado. Nada ali parece lhe servir. Sob a montanha de cascalho inútil, pulsam o coração e o desejo de falar das coisas que o inquietam e, quem sabe, da vida e do mundo. O livro, afinal escrito, não será o fim dessa agonia. Será um novo começo”.

Ecos de Badajoz nos entrega muita coisa para pensar, tem uma trama tecida por um escritor sensível e atento ao seu tempo. Que deseja compreendê-lo e denunciá-lo, com tudo o que há nele de caótico e contraditório, de belo e estarrecedor. O romance de Batista cumpre o que promete, nos fisga desde a primeira linha, nos enlevando.

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Marco Aurélio Nogueira
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